Porque anda alguém a roubar manuscritos?

Porque anda alguém a roubar manuscritos de livros?

Esta é a pergunta que corre pelo mundo literário e cujas respostas mais óbvias não se aplicam.

Aquele que poderia ser apenas mais um esquema de phishing, com editoras, agentes e autores como vítimas, é elevado ao nível das histórias que intrigam e nos fazem perder o sono.

Há mais de três anos que alguém anda a ludibriar com mestria incontáveis vítimas e depois de conseguir obter manuscritos de livros ainda não-publicados, simplesmente desaparecem.

No episódio de hoje, partilho contigo este mistério literário e as minhas suspeitas.

Bem-vindo!

Enquanto escritora – e pelos anos de trabalho no mudo editorial – sei o quanto um manuscrito é precioso.
Ele é a matéria-prima de um futuro livro, o ponto de partida de um longo processo de criação conjunta que envolverá o escritor, o editor, revisor, paginador, designer até à gráfica, à sua distribuição que o levará às livrarias e, finalmente, às nossas mãos.

Ora, quando surge o rumor de que alguém anda roubar manuscritos, não é de admirar que todos os olhos se voltem na direção da ameaça.

Trata-se de um esquema de phishing em que os principais alvos são escritores, agentes e editores, que ao receberem um email elaborado – e segundo consta, bastante credível – são induzidos a partilhar os referidos manuscritos de livros que ainda não foram publicados.

Entre as vítimas identificadas até agora, estão tanto, escritores de renome internacional – os alvos mais óbvios para um esquema como este, como também novos escritores, que se estreiam na publicação.

Como em qualquer crime, perguntamo-nos: o que ganhará o criminoso com o seu crime? …na esperança de que isso nos leve até ele.
Também aqui não há respostas claras, pois se no que diz respeito aos escritores menos conhecidos (que pela sua pouca notoriedade, logo à partida não poderão ser de valor para uma possível divulgação não-autorizada dos seus manuscritos) junta-se o facto de que, quando falamos de nomes sonantes… os manuscritos não têm sido divulgados no dito “mercado-negro”, nem em qualquer plataforma; e que se saiba, nunca foram pedidos resgates.

Um artigo do The New York Times debruçou-se sobre este mistério, rastreou exemplos concretos, expondo o modo como todo o esquema se desenlaça; identificou Margaret Atwood e Ethan Hawk entre alguns dos alvos mais célebres, e tentou, como todos nós, perceber para onde estariam a ir estes manuscritos roubados.

Na análise aos emails, percebe-se que quem quer que seja que está por detrás deste esquema, é alguém familiarizado com o processo de produção de um livro, com as etapas e os profissionais que nele participam… daí conseguir simular-se tão bem e parecer tão credível que poucas ou nenhumas suspeitas levanta.

O número de vítimas – escritores, agentes e editores – parece ser incalculável e não ter fronteiras. Existem casos reportados tanto nos Estados Unidos como em diversos países europeus.

Apesar de todo o interesse e esforço na resolução do mistério, o ladrão (ou ladrões), permanecem sem ser identificados. A pergunta: porquê? Sem resposta.

Resta-nos imaginar.

Na tentativa de construir a minha teoria sobre esta figura, ou figuras, misteriosas, eu vejo-lhe a audácia… a audácia de alguém que sabe que pode fazer algo que poucos podem, ou se atreveriam a fazer, e se sente inocente, na prática de um crime do qual, aparentemente, não obtém benefício próprio.

Se tens uma teoria tua, partilha-a comigo.

Entretanto, talvez o tempo, como sempre, nos traga respostas sobre este mistério: dos manuscritos que, depois de roubados, simplesmente desaparecem, sem deixar rasto.

Até lá, ficamos com uma boa história, para noites literárias, como esta.

 

O que aprendi com… Clarice Lispector.

 

Ela deixou-nos títulos inesquecíveis, como: “Perto do Coração Selvagem”; “Laços de Família”; “A Hora da Estrela” e “A Paixão Segundo G.H.”

Clarice Lispector é incontornável na literatura lusófona, mas eu, acabei de a descobrir e ainda estou a recuperar o equilíbrio… depois do choque.

Como não poderia deixar de ser: algumas lições foram aprendidas… que têm de ser partilhadas.
Aprendi que: as palavras podem transformar-se numa sinfonia; que é possível ler com o coração e os sentimentos; que podemos reconhecer a beleza num livro, e ainda assim não o compreender… e que, Clarice Lispector, com certeza, ainda terá muito mais para me ensinar.

Bem-vindo a este novo episódio!

 

Clarice Lispector é um nome que facilmente reconhecemos; escritora incontornável da literatura brasileira, tornada símbolo cultural.

Estas três frases resumem bem, o pouco que eu sabia sobre esta escritora, quando comprei “A Paixão Segundo G.H.” na última Feira do Livro de Lisboa.

Ao abri-lo, podemos ler na primeira página a mensagem com que a autora recebe os possíveis leitores:

“Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente – atravessando inclusive o oposto daquilo que se vai aproximar. Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém. A mim, por exemplo, o personagem G. H. foi dando pouco a pouco uma alegria difícil; mas chama-se alegria.”

Como não ficar cativada? Com uma primeira página assim.

Se já leste Clarice Lispector, aposto que agora mesmo te fiz sorrir e anuir em condescendência para com a minha ingenuidade.
Sim, eu não estava preparada para o que se seguiria: um choque narrativo, do qual ainda estou a recuperar o equilíbrio.

Vamos agora, a um pequeno excerto do livro:
“Vou criar o que me aconteceu. Só porque viver não é relatável. Viver não é vivível. Terei que criar sobre a vida. E sem mentir. Criar sim, mentir não. Criar não é imaginação, é correr o grande risco de se ter a realidade.”

Perceberam? Eu… ainda não…

Naturalmente fui à procura de ajuda neste lugar maravilhoso chamado internet e o que encontrei foram muitas palavras como: enigma, imaginário, experimental, labirinto, paradoxo… e isto, resume muito do que é a escrita de Clarice Lispector.

Neste livro, “A Paixão Segundo G.H.”… G.H. é uma mulher, a personagem central do livro cujo monólogo acompanhamos.
Depois de despedir a sua empregada, ela decide fazer a limpeza do quarto que esta ocupava e… num armário, depara-se com uma barata!
O encontro provoca em GH diversos sentimentos e leva-a a atos estranhos, como: matar a barata e decidir depois… prová-la.
Todo o livro é essencialmente um longo monólogo interior que se vai transformando, e que foi difícil de acompanhar.

Logo desde o seu primeiro romance, intitulado: “Perto do Coração Selvagem” Clarice Lispector apresentou um estilo de narrativa distinto e invulgar, virado para dentro, em formato de monólogo interior, em histórias nas quais os seus protagonistas são marcados por imperfeições – se os avaliarmos face aos comuns valores sociais -, e também por explorar o fosso entre as expectativas que temos da vida e a realidade.

Ora, todos sabemos um bocadinho sobre monólogos interiores, porque temos de ouvir os nossos e… ao ler Clarice Lispector, fiquei mais descansada porque, afinal, parece que a força da corrente destes nossos pensamentos é um set-up generalizado, e nas nossas cabeças os ventos das incertezas são, transversalmente, imprevisíveis.

O mais estranho na leitura deste livro foi… sentir-me à deriva a maior parte do tempo, mas ainda assim reconhecer um ritmo… uma espécie de melodia, que me fazia senti-lo… uma coisa, hipnotizante.

Um pouco desmotivada, admito, vi-me a ler menos páginas de dia para dia, e parece-me que, talvez por esse mesmo abrandamento, comecei a gostar cada vez mais do livro.
Coisas estranhas!

Já me disseram que esta escolha não foi a mais acertada, para me iniciar na obra de Clarice Lispector, que talvez a “Hora da Estrela” fosse preferível.
Também me sugeriram, começar pelos contos, para me familiarizar com o estilo de escrita, e então passar aos romances.
Tarde demais para mim, mas poderás fazer uso da dica, se ainda chegar a tempo, para ti.

Se, como eu, ainda assim sentires dificuldade ou até possivelmente não o conseguires perceber de todo, não estarás sozinho.
A própria Clarice Lispector refere em entrevista, que um professor universitário a abordou, lamentando-se por já ter lido um livro dela quatro vezes e continuar sem o perceber – há que lhe reconhecer a persistência -; e no entanto, ela também refere uma jovem adolescente que lhe disse que tinha o mesmo livro como livro de mesa-de-cabeceira, de tanto, que o adorava.

Livros e os seus leitores, são sempre combinações únicas; e em Clarice Lispector, experiência de leitura parece ser mais pessoal e singular do que nunca.

Existem muito poucas entrevistas a Clarice Lispector.
Assisti à que deu à TV Cultura e convido-vos a vê-la, porque vão descobrir uma mulher peculiar que:
Não hesita em assumir que “não sabe”, que “as suas respostas são imprecisas ou incompletas, ou simplesmente, a recusar responder a perguntas.
Ouvi-la hoje, neste nosso contexto social em que nos vemos rodeados de pessoas com opinião sobre tudo; de informação que nos faz sentir no dever de também nós termos uma resposta a tudo; foi muito bom ouvi-la dizer “não sei” “desculpe, não vou responder”, porque me lembrou que estas continuam a ser opções válidas.

E quando o entrevistador lhe perguntou: a partir de que momento decidiu assumir a carreira de escritora profissional, Clarice Lispector responde:
“eu nunca assumi, não sou uma profissional, só escrevo quando eu quero, eu sou uma amadora e faço questão de continuar a ser uma amadora. Profissional é aquele que tem uma obrigação consigo mesmo, de escrever, ou então com o outro, agora eu, faço questão de não ser uma profissional para manter a minha liberdade”

Ao longo da entrevista, ela confessa não ter objetivos, escrever apenas por escrever; ser tímida e ousada ao mesmo tempo; diz: “só estou triste hoje, porque estou cansada, de um modo geral, sou alegre”; sem medo do longo silêncio que se segue, nem de confessar que nos períodos de hiato, em que não escreve, é muito duro, quase uma morte, mas necessário, um esvaziamento para que depois algo possa nascer, uma escritora que escreve sem esperança, convicta de que o que escreve não altera nada.

“Então porque continuar a escrever, Clarice?” Pergunta o entrevistador e todos nós.
Ela acende um cigarro e responde: – E eu, sei?

Só li este primeiro livro, muito pouco para tirar conclusões, mas, neste momento, se ainda não me rendi à obra, sem dúvida, que me apaixonei pela escritora.

 

Que estranho, este nosso hábito de ler.

No que toca a coisas estranhas, quão estranho é, este nosso hábito de ler…?
E como somos recompensados, por toda a dedicação e tempo, que disponibilizamos aos nossos livros?

Explicá-lo, especialmente a alguém que não lê, pode ser complicado, porque o que retiramos das nossas leituras depende, de tantas coisas!

Hoje, vou falar aqui: sobre algumas delas; sobre dois livros que tenho andado a ler e, dar palco e voz a um dos meus clássicos favoritos.

Bem-vindo, a mais um episódio!

Num episódio passado, falei sobre este nosso isolamento recente, que mudou tanta coisa, incluindo a forma como selecionamos o que ler e como o lemos.

Escolhem-se livros por diversas razões, para diversos propósitos: desde uma fuga ao que é doloroso, para encontrar refúgio num lugar melhor e mais feliz, até ao oposto, para mergulhar de cabeça nos problemas e tentar compreendê-los e desembrulhá-los de dentro. Pelo meio, muitos outros critérios são possíveis.
Quanto a mim, por norma estou mais inclinada para este último dos extremos: escolher livros de temáticas, que me são próximas no momento, com abordagens que tragam perspectivas sobre o que alimenta sonhos lúcidos e divagações existenciais.

Por estes dias, andei a ler dois livros que recomendo vivamente desde já: O Lobo das Estepes de Hermann Hesse, um clássico, e A Cidade Solitária de Olivia Laing.

O Lobo das Estepes é um dos livros mais populares de Hermann Hesse, a par com Siddhartha, e retrata um homem de meia-idade, respeitável e culto, que se sente espiritualmente metade-homem, metade lobo.
Numa escrita intemporal, característica de muitos dos autores galardoados com o Nobel, Hermann Hesse ilustra o isolamento, que nasce de se sentir incompreendido e incapaz de comunicar com os outros.
Harry Aller, o protagonista, o lobo das estepes, inicia a narração no tom melancólico que caracteriza todo o livro:
“O dia tinha passado como normalmente passam os dias: eu o tinha-o desperdiçado, dissipado suavemente, com a minha maneira de ser primitiva e arredia…”

Já A Cidade Solitária é um livro autobiográfico, que resultou de um período de solidão na vida de Olivia Laing – quando a autora se mudou para Nova Iorque – e contém reflexões sobre a descoberta que ela foi fazendo da cidade, invocando ao longo do livro histórias de muitas figuras públicas do mundo da arte, que também viveram esta mesma cidade em outros tempos. Entre eles – tenho de referir: Edward Hopper – um dos meus pintores favoritos.

Escreve Olivia Laing no primeiro capítulo:
“A cidade revela-se como um conjunto de células, milhares de janelas, algumas escurecidas, outras inundadas de luz verde, branca, ou dourada. Lá dentro, desconhecidos deslizam num vai e vem dos seus afazeres em momentos de privacidade. Conseguimos vê-los, mas não conseguimos alcançá-los, e assim, este fenómeno urbano comum, disponível em qualquer cidade do mundo, em qualquer noite, desperta até nos mais sociáveis um tremor de solidão, uma combinação incomoda de separação e exposição.
Podemos estar solitários em qualquer lugar, mas viver na cidade, rodeado por milhões de pessoas, confere-lhe um sabor particular.”

Infelizmente não há ainda edição nacional, d’A Cidade Solitária, mas é possível obter versão brasileira. Vou deixar o link para o site da wook no blog.

Estes são dois livros que gostei muito de ler recentemente, no entanto quando penso no que respeita a melancolia e solidão, o nome de referência – para mim – continua a ser Bernardo Soares, o ajudante de guarda-livros da cidade de Lisboa, semi-heterónimo de Fernando Pessoa, que como o próprio referiu em carta a Adolfo Casais Monteiro: “É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha.”
Hoje não resisto a partilhar um excerto do seu Livro do Desassossego… lá para o final do episódio, se quiseres ficar para ouvir.

Sendo esta a primeira vez que partilho as minhas leituras recentes, aproveito para deixar aqui uma salvaguarda: sou leitor lento. Gosto de me demorar no que leio. Não hesito a fechar livros com os quais não me identifico. E só dedico tempo, àqueles de que realmente gosto.

Nem sempre foi assim, talvez, o ter começado a escrever, teve alguma coisa que ver com este abrandamento. E, assumo com algum pesar, ter aceitado a realidade de que, ao escolher os livros que lemos, estamos a escolher também os que não vamos ler.
Escolhas tem de ser feitas, e se assim tem de ser, que sejam o mais acertadas possíveis, não concordas?

Comecei a ler com regularidade apenas na adolescência, e gosto de o referir porque há tantas pessoas que justificam a ausência de hábitos de leitura regulares com o passado, a infância e educação, como se fosse pré-requisito para leitor, ter crescido no seio de uma família de leitores, rodeado de livros. Que é um estímulo, sem dúvida, mas não essencial.

Se tivesse de escolher essenciais, nesta arte de entusiasmar leitores, escolheria antes: um amigo leitor e uma biblioteca nos arredores lá de casa.
Porque foi isto que mais me faltou, o primeiro, o amigo leitor, porque a biblioteca, essa estava lá.
É maravilhoso poder ter alguém que nos oriente na floresta de possibilidades que é uma biblioteca, cheia de livros, uma ajuda nesta aventura sem fim de descoberta de novas histórias e novas escritores, para além de companhia para aquelas conversas literárias tão boas.

E depois a prática. Porque ler não é natural ao ser humano, lembras-te? Gutemberg veio revolucionar a nossa vida há escassas centenas de anos, enquanto que nós, seres humanos, o nosso cérebro, vem evoluindo há tantos milhões.
Papel, tinta e letras são uma inovação recente para a nossa anatomia anciã.
A leitura requer prática, e após a sua mestria até à banalidade, esquecemos facilmente o quão poderosas são estas armas que herdamos: a palavra e o livro, este objeto fascinante que, se me estás a ouvir neste momento, estou certa que partilhamos do mesmo encanto por ele, que também tens imensos em tua casa, que ocupam os lugares mais privilegiados, tal como ocupam na minha, e que te fazes acompanhar por eles sempre que podes.

Se for mencionar alguns escritores favoritos, poderia escolher vários títulos Paul Auster, Gabriel Garcia Marquez, Thoreau, John Fante, Eça, Camilo… e convém mencionar alguns contemporâneos como Mário de Carvalho, Joel Neto, Afonso Cruz… entre muitos outros.
Selecionar nomes, sem dúvida que revela algo sobre mim, porque se os escolho é porque me identifico com os seus mundos… mas isso é verdade, apenas hoje, neste momento, em que estou a aqui gravar. A resposta há dez anos atrás seria bem diferente, porque eu era outra pessoa, porque ainda não tinha sequer conhecido alguns destes escritores. E sabê-lo, pressupõe que daqui a dez anos, ou já amanhã até, haverão novos nomes a mencionar, outros continuarão a ser mencionados para sempre… nesta longa descoberta que é a jornada de leitor.

E o que nos torna leitores? Creio que o mesmo que nos torna bons seres humanos: curiosidade pelo que nos rodeia, bondade de espírito, respeito e empatia pelo outro, tolerância para com as suas faltas e erros, e um idealismo, na vontade de ser melhor a cada dia.

São tantas as coisas que desejamos compreender e sentir, que com um livro nas mãos conseguimos ultrapassar a simples realidade de letras impressas em papel – quando deixamos de as ver e o ato de ler se transforma numa meditação, simultaneamente solitária e acompanhada, capaz de nos levar às lágrimas quando de súbito encontramos a nossa alma gémea num escritor que morreu no século XVIII.

Que estranho, é este ato de ler, não acham?
Alguém, que segura nas mãos um livro, objeto composto por folhas de papel preenchidas por letras em combinações imensas, ao qual decide dedicar horas de vida a interpretar, indo ao encontro das ideias propostas por um desconhecido, um escritor, que ele provavelmente nunca conhecerá, mas com quem partilha – ali no estranho ato de ler, um mundo interior imenso.
Tão incrível que parece impossível, a existência, à distância e em solidão, de tal intimidade entre duas pessoas.
Não é de admirar que seja tão complicado de explicar a quem não o compreende.

Que estranho, e que maravilhoso, é este nosso hábito de ler.

Como começou a tua história de amor com os livros?
Quais os critérios que usas para os escolher?
Conta-me, eu gostava de saber.

Vamos Escrever?

 

Vamos começar?
Esta é a época dos inícios, das listas, das intenções, resoluções, e pelo que percebi, a escrita também está nos planos de muita gente.

Romances, mistérios, diários… o que não te falta é ideias e imagino que algumas dúvidas.

Mas as dúvidas também fazem parte das coisas boas e escrever é, definitivamente, uma ótima ideia!

Se estás a pensar em começar um diário, peço que partilhes comigo tudo o que sabes porque há anos que tento disciplinar-me a manter um e ainda continuo a tentar.
Se há um livro de ficção no teu horizonte, nesse caso, tenho uma palavra a dizer sobre o assunto.

Hoje vou percorrer os solavancos da minha jornada literária com o top 3 das tormentas: legitimidade, originalidade e expressão.

Gostava de ter uma fórmula mágica pronta para oferecer – uma que dissipasse todas as hesitações – mas mesmo sem fórmulas mágicas, vou partilhar contigo algumas das descobertas destes solavancos que.. espero… venham a ser uma ajuda para tornar o teu caminho um bocadinho mais fácil.

“O homem é um ser ficcionante.” Disse Eduardo Lourenço, o grande pensador português. “A nossa relação com o real é uma relação imaginária.”

É aqui que tudo começa:
Todos nós somos levados desde cedo por este impulso natural de imaginar.
A partir do que nos rodeia, interpretamos, criamos histórias… e vamo-nos perdendo nelas até… não importa a idade.

A certa altura, pode surgir em alguns de nós a vontade de partilhar estas histórias que imaginamos… e escolhemos a escrita como a arte para o fazer.

Uma das minhas memórias mais antigas é a de estar sentada em frente a um vaso, a alisar a terra com os dedos e a falar com as flores.

Se leste Onde Cantam os Grilos, talvez percebas logo que esta minha primeira memória, as flores, se embrenhou no livro. Como esta, há muitas outras memórias moldadas a ficção… faz parte da escrita.
Mas de, uma simples memória de infância até a um livro, vão mundos de distância cheios de dúvidas.

Poderia resumir assim o meu top 3, nos solavancos desta jornada literária:
Legitimidade: quem, ou o quê, nos dá o direito de escrever?
Originalidade: é um ideal a ser alcançado? Ou um mito?
Expressão: como é usar palavras para tornar uma página em branco num mundo para partilhar.

Este trio foi o meu cabo das tormentas.
Ah, e a cereja no topo do bolo das conversas de circunstância: escritores, já há muitos!

Ora, não é de surpreender que me tenha feito questionar a minha legitimidade assim que pensei em juntar duas palavras com significado… também conhecido como Síndrome do impostor.

Síndrome do impostor:
sensação de inferioridade ilusória; subestimar as próprias capacidades; crença de que os outros são mais capazes.
A descrição é-te familiar?
Pode até não ser uma doença, mas estas dúvidas transformam-se facilmente em pensamentos com poder para incapacitar qualquer um de nós de fazer o que deseja, especialmente coisas novas… como por exemplo, escrever.

Afinal, quem, ou o quê, dá legitimidade a alguém para se tornar um escritor?

Comecei por pensar que era a idade, que era necessário alcançar um tempo de vida mínimo para ter o direito a ser levada a sério – aqui deixo a ressalva de que a minha adolescência não foi bafejada com a boa fortuna da internet, que democratizou plataformas de expressão. No meu tempo… bem, não vamos falar nisso…

Depois da idade, pensei que pudesse ser o conhecimento, a especialização, estudos académicos, cultura geral; depois, o círculo social, depois… outras coisas… até que por fim, o óbvio: o que legitima um escritor é o próprio ato de escrever.

E, importante aqui referir, não confundir legitimidade com reconhecimento, que foi o que fiz na minha pergunta mal formulada.
Ser escritor é uma coisa, ser reconhecido como tal, é outra bem diferente.

Portanto, aqui as notícias não podem ser melhores, nem mais simples: se queres escrever, escreve, não precisas de autorização, benção ou aprovação.

A respeito da originalidade:
Se considerarmos uma história passada numa herdade, com uma criança que foi abandonada, uma família com segredos, os seus empregados; original não é o adjetivo que usaríamos, certo? Claro.
Pois então, replico aqui a dúvida existencial de tempos distantes: Maria Isaac porque escreves tu tal coisa?

Esta pergunta fez-me parar de escrever tantas vezes. e não foi só com Onde Cantam os Grilos, foi durante demasiado tempo, com quase tudo o que ia escrevendo. Até perceber, mais uma vez, que era a pergunta errada, este foco em ser original.

Perceber isto, foi perceber que aquilo em que eu devia trabalhar e perseguir não era originalidade, era autenticidade.

Não acredito que a originalidade esteja nas minhas mãos; ela existe com o leitor, na interpretação que ele faz ao ler; a originalidade é uma colaboração entre um escritor, e um leitor.

Vejo o que escrevo como se fosse um mapa para uma viagem, e quando alguém lê, e segue as direções que sugeri, essa pessoa vai – tal como um viajante – dar atenção a certas coisas em detrimento de outras, vai ver com os seus próprios olhos, recriar a partir do que sugeri, e eu adoro este companheirismo que acontece entre quem escreve e quem lê, porque é aí que se cria a originalidade, que torna cada livro, único.

A minha grande preocupação são as palavras que formam este mapa cheio de direções e ditam o seu rumo.

O que nos leva ao último dos desafios no top 3 das tormentas: Expressão, a dificuldade de pôr em palavras o turbilhão de coisas que nos vai pela cabeça.

Tenho um exemplo pessoal muito concreto do que quero dizer:
Considero o Onde Cantam os Grilos um dos melhores livros que escrevi, e ele foi o meu primeiro livro… não o mesmo livro que leste, o que está nas livrarias, porque esse é o resultado de eu ter voltado a ele, ao primeiro livro, vários anos depois, e o ter reescrito por completo… no entanto, ele é, no seu essencial, aquilo que eu queria escrever, numa época em que ainda não sabia como o fazer.

Há escrita de qualidade – que pode ser aprendida com a ajuda de cursos e workshops – e talento para a usar de maneira criativa.
Talento, esse que se desenvolve, com muitas, muitas horas de leitura e escrita… e como qualquer outra arte, se pratica até à mestria.

Moral da história: escreve, mesmo que ainda não consigas que seja tudo o que queres que seja. Guarda na gaveta, regressa a ele mais tarde, tantas vezes quantas achares necessárias até te parecer perfeito.

E outra coisa, nem todos os livros são para ser partilhados, alguns nunca devem sair da gaveta e não há qualquer problema nisso – são escritos simplesmente pelo bem de futuros livros; livros melhores.

Se a escrita é uma luta, guarda estas palavras de Faulkner:
“É a ocupação mais gratificante que o Homem já descobriu, porque nunca o conseguimos fazer exatamente como pretendemos fazer, e por isso há sempre uma razão para acordar na manhã seguinte e continuar.”

Escrever tem sido uma das atividades mais recompensadoras a que me tenho dedicado e por isso todas estas tormentas foram boas conquistas.

Encontrar as palavras certas, colocar em ordem memórias e pensamentos por natureza rebeldes, incoerentes, descrever experiências, emoções, poder partilhar tudo isto é uma sensação libertadora.

Escrever um livro é como a gastronomia: resultado da escolha criteriosa de ingredientes na exuberância da natureza humana, que depois de transformados com muita dedicação, permitem saborear uma amostra de vida.

Escrever ficção é aprender a estar confortável a representar dois pontos de vista contrários com a mesma paixão, com o privilégio de não ter de escolher nenhum deles.

As barreiras entre nós já são demasiadas.
Porque andamos stressados. Porque nos sentimos ansiosos. Porque somos neuróticos.
Precisamos de muitos escritores, muitos leitores, muitos livros.
Observa, presta atenção ao mundo, parte de ideias comuns, torna-as em algo novo, coloca-as no papel.
Escreve, partilha e convida-nos numa viagem.

Leitura: “Cartas a um Jovem Poeta” _ Pág. 16 a 17 _ Cultura editora.

Episódio Extra: “O Fantasma de uma Florista”

 

Olá, eu sou a Maria Isaac e quero dar-te as boas-vindas a este episódio especial do podcast, dedicado a todos os leitores do “Onde Cantam os Grilos”.

O capítulo extra que se vai seguir, fazia parte do manuscrito inicial do livro, no entanto sempre tive dúvidas se, em caso de publicação, ele iria permanecer.

Ele era o epílogo original, que revela a resposta ao mistério: como é que o Formiga chegou à Herdade do Lago?

Apesar de saber que era importante – e os comentários que recebi de leitores veio a confirmá-lo – inclui-lo ou não, implicava uma escolha sobre o tom que ia definir todo o livro, uma vez que estaria a terminar o livro com um narrador diferente.

Escolher entre revelar as origens do Formiga e abdicar da sua voz como a única voz do livro, foi uma decisão difícil e, como sabes, optei por esta última, por manter apenas o Formiga como narrador do livro.

Apesar da perda, quero acreditar que foi a escolha certa.

Uma nota final: se ainda não leste Onde Cantam os Grilos, peço que resista à tentação de ouvir este capítulo, porque ele vai alterar a forma como interpretas todo o livro, caso o venhas a ler. Este capítulo revela informação sobre personagens secundárias que, tal como referi, a minha intenção sempre foi revelá-las apenas no final.

Podes ouvir antes o inicio do livro que está disponível no primeiro episódio podcast.

Sem mais: É com muito gosto que partilho, finalmente, este segundo epílogo!

Espero que gostes.

 

O Fantasma de uma Florista

Nos últimos raios de sol, ela ouviu passos e seguiu o som.

O funeral do velho Vaz tinha terminado cedo pela impaciência da chuva, deixando o seu cemitério vazio novamente. Aquele era lugar de silêncio e ausências, e só em dias de funeral – quando sons e pessoas o faziam pequeno – é que a velha florista se apercebia do quão diminuto era o espaço da sua eternidade.

Ela deslizou por entre as sepulturas, aproximando-se do homem só, pelo caminho mais longo. 

Seria ele? Poderia? …depois de tantos anos? Há muito que já não o esperava, ao homem negro longínquo, mas quanto mais ali se aproximava, melhor parecia reconhê-lo. Ele estava junto à sepultura do velho Vaz, cabeça descaída, mãos entrelaçadas e respeitosas, um manto de serenidade assente nos ombros, e espalhado ao seu redor.

Que parecido era ele com o homem longínquo, mas não, a Florista não o lembrava assim.

Havia muitos, muitos anos, no último dia em que o comboio parou na estação da vila – num tempo em que a Florista ainda não era florista, era antes guardiã dos comboios que paravam em Mont-o-Ver – ela conheceu o homem longínquo, para nunca mais o esquecer.

A memória desse dia abrandou-a, ao jeito com que as memórias abrandam o tempo, deixando-a em suspenso antes de a chamar de volta.

Do passado veio o som estridente do velho telefone. Ela levou as mãos aos ouvidos, fechou os olhos, mas ainda assim foi arrastada.

O alerta correu por toda a linha férrea. As manivelas dos telefones nos postos de guarda rodaram urgentes: 

— Oh estação! Oh estação! Um Roubo! – Foi lançado o aviso. A voz de distância desconhecida identificou o posto.

Zelosa, ela ficou a ouvir em silêncio, como vinha fazendo ao longo dos anos, desde que o seu irmão louco assombrava os inocentes passageiros dos comboios, sem mostrar misericórdia pelos mais distraídos, roubando-os sem dó, piedade, nem remorso, fosse qual fosse o grau de pobreza ou riqueza das suas vítimas.

— Oh estação! Oh estação! Um bebé!

Ela tremeu. Seria o seu irmão louco assim tão louco!? Havia um cesto, um cesto que ele lhe tinha escondido horas antes, fugindo de si, das perguntas que lhe queria fazer, escapando-se mais uma vez com os disparates e gargalhadas de um mau malandro.

Ela manteve o auscultador do velho telefone junto ao ouvido, bem seguro pelas suas duas mãos transpiradas, tanto tempo quanto conseguiu, ouvindo as conversas entre as outras guardas, as ordens do chefe de estação que fazia por cumprir o seu dever e manter a ordem nas comunicações de uma só linha telefónica, ela ouviu até que finalmente suou ao longe, imponente e determinado, o apito do comboio que anunciava a chegada e exigia atenção.

Aquela seria a última vez que o comboio pararia em Mont-o-Ver, e sem os seus comboios, ela deixaria de ser necessária ali, o seu posto de vigia extinto, seria a Florista, e o seu irmão louco ia finalmente ficar preso e seguro na vila, como todos os loucos deveriam ficar: protegidos de si mesmos, rodeados por quem os ama e lhes quer bem.

O homem longínquo chegou com o último comboio, saltou para a plataforma vazia, ágil e urgente. Sem demora, falou-lhe em frases curtas, palavras que ela adivinhou terem sido repetidas em todas as paragens pelas quais tinha passado antes de chegar ali.

Era um homem elegante, que a olhava de cima, não por se considerar superior, apenas porque estava habituado à perda na sua vida e se recusava a vergar à dor, ou sequer mostrar o quanto esta lhe pesava, porque, mais uma vez, a vida lhe dera uma difícil missão para cumprir.

Nessa manhã, no comboio, ele dormia com a sua mulher e os seus cinco filhos – disse-lhe – foi culpa da exaustão de uma jornada longa que faziam para terras distantes. Ao acordarem, havia ao seu redor quatro crianças em vez de cinco; apenas quatro lhe sobravam, mas que tinham de viver e era seu dever de pai garanti-lo. A sua esposa estava inconsolável. Chorava o bebé roubado de uma cesta aos seus pés. Nenhuma mãe deveria sentir tal dor, nenhum pai deveria ser obrigado a determinar uma preferência entre os seus filhos, a escolher deixar um, pelo bem dos outros. 

O revisor observava, empoleirado numa das portas, apito na boca, a aguardar o regresso do homem longínquo.

Ela ouviu todas as palavras, naquele sotaque musical desconhecido que ecoaria para sempre nas memórias de uma florista com um segredo. 

– Sim, falo à polícia. Se souber de um bebé. — prometeu para nunca cumprir.

O homem longínquo acreditou na guardiã – sem saber que só lhe restava aquele comboio para guardar – e voltou para o comboio, desapareceu para o seu interior, com o mesmo salto decidido com que tinha surgido. O revisor soprou o apito, o comboio arrancou pela última vez, Mont-o-Ver ficou para trás, e o homem tornou-se longínquo.

Nesse mesmo dia, a Florista veio a descobrir que o seu irmão era o mais louco dos irmãos, que roubou um bebé para oferecer à mulher que dizia  amar desde que a sua loucura o tinha levado a acreditar no amor. Simplesmente porque era um homem louco, que ouviu uma mulher chorar num dia de tristeza; a doce Idalina que se permitiu a uma fraqueza e entregou uma lágrima pública ao desgosto por nunca ter sido mãe. Na sua loucura interminável, o irmão acreditou que estava ao seu alcance corrigir uma injustiça do destino, à custa do mais hediondo dos seus crimes.

Todos eles tinham desaparecido: o seu irmão louco, o casal adormecido no comboio a quem ele roubou o bebé, a própria Florista, e agora também o velho Vaz; que sabia a verdade, e lhe prometera cuidar do bebé até ao regresso do homem longínquo. 

— Porque não entregamos a criança? Porque não o deixamos à noite na igreja para ser devolvido? – Perguntou-lhe a Florista, determinada a corrigir o pecado em nome do seu irmão louco. 

Mas o velho Vaz voltou-lhe as costas entre palavras. — Porque se sobrevive melhor a guardar os segredos de quem guarda os nossos segredos. — Respondeu-lhe ele. E à insistência cristã da florista, assegurou: — Se eles voltarem, nós entregamos a criança. Fazê-lo neste momento seria garantido perdê-lo para um mundo mais cruel do que podes imaginar.

A Florista acreditou no velho Vaz, na promessa, que Herdade do Lago era o sítio mais seguro para esperar. Mas os meses passaram, anos; o homem longínquo nunca voltou e eles ficaram com o seu bebé.

A verdade agora, a quem importava? Era de interesse apenas para o fantasma de uma velha florista que sonhava com comboios e talvez para quem tenha conhecido o bebé, a quem chamaram Formiga, e o seu irmão louco, Fureca.

E assim no final de um dia chuvoso o bebé roubado regressou num homem sábio, ali a visitar fantasmas, para ficar para sempre, na sua terra de flores.

 

Livros em tempos de Solidão

 

Neste segundo episódio do podcast, deixa-me dizer-te desde já… que também estou empenhada em valorizar as coisas mais simples e tudo aquilo que é importante e nos permite continuar, tal como escreveu Fitzgerald no seu maravilhoso Gatsby: barcos contra a corrente.

Nestes dias recentes de tanta incerteza – que vieram transformar as nossas rotinas – navegamos entre marés de otimismo pela manhã e ceticismo à noite, num esforço incessante para não perder o momento presente, e vivê-lo… com arte… uma especialidade nossa, de escritores e leitores, que conseguem invocar refúgios das palavras e estão sempre dispostos a reinventarem-se, em mais um livro.

Como o fazemos..? Bem se sabe que: respostas a perguntas complicadas, nunca podem ser simples, mas… vamos lá tentar algumas hoje.

Vou falar aqui de: novas perspectivas, de lembrar a esperança nas palavras de Albert Camus e há até um pequeno desafio para ti, se tiveres coragem para o aceitar. Vamos lá!

Quero começar por defender uma palavra: rotina.

Ela não é vilã. Ela tem – como todas as outras palavras – uma vida pública e está aberta a interpretações. Não vou aqui citar o dicionário, porque começaríamos pela definição do que já sabemos: Sim, andamos imersos no nosso quotidiano, e – culpa da rotina – acabamos por deambular pelo dia-a-dia, ausentes de nós, num transe hiperativo que nos impele para sermos produtivos e garantir que cada minuto do dia, conta… e conta, para o quê? Ora, isso é que nem sempre é claro.

É como se a rotina formasse uma camada superficial, que assenta sobre, a outra versão de nós, aquela outra personalidade mais rica e profunda, que, essa sim, nos retrata como um ser humano único, precioso, digno de atenção e cuidado. À semelhança daquele livro incrível que adoramos ler, com uma capa medíocre.

E é este um reflexo injusto que pode fazer-nos sentir prisioneiros? Em muitos dias, sim, sem dúvida que nos faz querer deixar tudo e perseguir o sonho, despedir o chefe, entrar no avião, inspirar o calor tropical, até vender cocos…! Qualquer opção, parece melhor, do que ter de repetir o dia anterior. Talvez por isso – e porque é cada vez maior a diversidade de livros e palestras sobre desenvolvimento pessoal, que nos apresentam tantas opções de vida que aparentemente estão ao alcance – são já poucas as coisas que nos conseguem arrancar da nossa rotina – com violência suficiente – e despertar-nos para as virtudes dela; para tudo o que nos oferece.

Não foi isto mesmo que marcou 2020? Uma interrupção abrupta das rotinas e um medo desconhecido que surgiu da possibilidade de as perdemos!? Pela primeira vez na vida senti pena de não poder ir ao ginásio. Ou quase. Mas sem dúvida que estes dias conturbados de incerteza, que temos atravessado em conjunto, me trouxeram uma nova perspetiva das rotinas. Quando – há alguns meses – fomos roubados deste refúgio das rotinas simples, das pessoas que, até então, nunca nos tinham faltado, das tarefas que nos ocupavam, novas realidades vieram tomar o seu lugar, algumas delas poderosas, como a solidão.

Até então estávamos ocupados e o estar ocupado, vinha preenchendo o tempo, e justificando não confrontar dificuldades pessoais com honestidade. Valter Hugo Mãe utilizou a metáfora do espelho, na entrevista que deu ao Expresso – que achei perfeita. – Ele refere que esta solidão recente; passo a citar :“é como um espelho diante de nós, um modo de nos conhecermos.” Ele refere que, quando privados do espelho que são os outros – todos aqueles que nos rodeiam e que refletem uma imagem que temos de nós – fomos deixados, sem distrações, com o espelho, que nos reflete de dentro. Esta é uma entrevista muito interessante, que vale a pena ouvir, e vou deixar-vos o link no blog.

Não há mais onde viver, senão no momento, e como nós mesmos. Quando não percebemos nada de coisa nenhuma e precisamos de uma aproximação ao que nos é tão estranho, para compreender os outros, a nós próprios, é neste ponto que as histórias que lemos e escrevemos – aqueles outros mundos compostos pelos livros, a escrita, as várias artes – todos eles criam janelas de possibilidade e aproximação.

Escrevo para explicar um pouco tudo isto a mim mesma, para me aproximar de sentimentos. Para criar pequenos momentos daquela liberdade de poder existir em outras pessoas e viver vidas que nunca ficariam ao alcance de outra forma, senão através da minhas personagens, ou das histórias dos outros. Cada livro, meu ou de outro escritor, é uma possível explicação do que escolhemos ver no que nos rodeia, uma validação ou desafio às decisões que tomamos. E neste exercício de proximidade de ideias e sentimentos – que existe num livro – podemos ficar mais perto dos outros e até, quem sabe, de nos tornarmos quem acreditamos ser.

É a magia da escrita! Já pensaram em experimentar? Sugiro começar pelo mais difícil, e se o conseguirem, a partir daí, só vai ficar mais fácil. Deixo então aqui o desafio: Escreve sobre a rotina de alguém de quem não gostas. Alguém que neste momento desperta o pior que há em ti. Quando começares a observar mais de perto e atentamente, vais começar a ver o mistério nessa pessoa, e é aí que a magia começa. Senta-te com papel e caneta em mão – precisas de cheirar a tinta da caneta – e trata de construir uma história, esta personagem – o mais aproximada possível da realidade, argumenta na perspetiva, e pelo interesse, do teu inimigo. O perfil público desta personagem pode moldar a forma como interpreta e responde ao presente. Mas a sua narrativa privada – a história, em que esta personagem acredita, e que agora vais começar a compreender – molda a forma como esta se vê, e essencialmente, quem se tornará no futuro.

Experimenta. A fronteira, entre um herói e um vilão, pode bem estar na forma como contas esta história. Eu gostava de saber o que descobriste. Se quiseres partilhar comigo, já sabes o email: mariaisaac.pt@gmail.com

Camus escreveu: “No meio do inverno, descobri finalmente, que havia em mim, um verão invencível.”

As citações de grandes escritores são sempre fonte de consolo. É como se eles fossem aquele elemento da nossa família – a avó ou tio favoritos – sábios e pacientes – que gostaríamos de ter por perto, para longas conversas, mas que a maioria de nós, não teve a sorte de ter, por isso, adotamos os escritores. Mas apanhados nesta tempestade de 2020, é fácil esquecer as palavras inspiradoras de Camus e o ciclo da natureza, que um inverno implica que depois dele se vai seguir uma primavera, e a existência de um verão maravilhoso depois dela.

A cultura está a sofrer, e ainda assim, muita arte foi criada nestes últimos meses. Contributos incontáveis para uma memória coletiva de tudo isto que estamos a viver. Como tantas vezes acontece com a arte. Talvez só mais tarde, apenas em retrospectiva, seja possível perceber o quão importante é este contributo. Uma coisa é certa para todos nós, o presente está a fazer-nos sofrer e ele vai parecer bem diferente quando o olharmos do futuro, da primavera. Sem dúvida que vamos ver erros, mas toda a gente sabe que é bem mais fácil viver em qualquer outro tempo, que não seja este preciso minuto.

O que fazer, então, deste momento em particular? Colocá-lo em contexto. Ele nunca será perfeito – este instante no tempo, nem nós, que o vivemos – isso é uma limitação, mas resta sempre a possibilidade de experiências e sentimentos genuínos. Mesmo que seja tristeza. Ela também tem dignidade em si mesma, e pode desvendar-nos tal como qualquer outro sentimento. Eles são todos professores na mesma escola. Felizmente para a arte – para a escrita – a vida é complicada, misteriosa, difícil de compreender, e com possibilidades infinitas de interpretação… para quem estiver disposto a criá-la.

E se estás entre eles: Escreve sobre o que sabes. Escreve sobre o que não sabes. Estas são as duas sugestões mais repetidas para quem começa a escrever e procura: “encontrar a sua própria voz”, como se costuma dizer. Eu já comecei há algum tempo e ainda levo estas duas máximas bastante a sério. Interessa-me a vida, para a viver, e escrever, para a compreender. Somos todos necessários, porque somos todos únicos, e cada época cria o seu próprio tom que devemos interpretar – e é suposto ser esse o lugar de um escritor em tempos turbulentos. A abraçar a incerteza e contribuir para uma superação.

No seu discurso de aceitação do Nobel, Saramago, disse sobre o seu avô (um homem simples, contador de histórias): “(…) era capaz de pôr o universo em movimento, apenas com duas palavras.”

Então, vamos seguir-lhe o exemplo: Faça-se uso, das palavras.

Obrigada por estares desse lado e partilhares desta noite comigo. Poderás encontrar no Blog PalavraPodcast a transcrição de todos os episódios, com links úteis. Deixo-te agora de volta ao teu livro. Eu sou a Maria Isaac. Boas leituras. Até ao próximo episódio.

EP1_Bem-vindo!

 

Bem-vindo ao Palavra!

Aqui, as noites são literárias; descobrem-se livros, grandes escritores, contam-se histórias,  fala-se de coisas estranhas.

Eu sou a Maria Isaac, e estou contigo neste podcast.

***

Olá, Boa noite!

Ouvi dizer que gostas de podcasts… Se a tua resposta é: sim… mas ainda prefiro livros, então, estás no sítio certo! 

Neste primeiro episódio, vou dar-te as boas vindas e mostrar-te os cantos à casa.

Bem-vindo! Bem-vindo! Bem-vindo!

***

É ótimo poder estar aqui, agora a viva voz… num novo formato.

Para mim, acreditem, não é fácil deixar o silêncio do papel…

Mas…! Como costuma acontecer nas aventuras… e este podcast é de facto uma grande aventura… a experiência está a ser, empolgante e intimidante, em partes iguais.

Entre muitas outras coisas, colocou-me novas questões.

A começar, responder à pergunta: porquê? Porquê criar um podcast?

  • Possível resposta nr. 1: porque nunca fiz nada semelhante.

  • Possível resposta nr. 2: Porque não!?

  • Possível resposta nr. 3: Porque eu gostava que existissem mais podcasts sobre livros, as histórias e os personagens que eles nos dão a conhecer, os escritores que os escrevem…  EM PORTUGUÊS.

E assim, seguindo o provérbio: sê a mudança que queres ver no mundo. Aqui começa o meu pequeno gesto: um podcast literário!

***

Podcast, Maria Isaac: a combinação dos dois, não me pareceu uma possibilidade assim tão terrível à partida e, bem ao estilo das coisas descabidas, quanto mais tempo lhe damos, melhor ela fica. 

Afinal, é neste tipo de desafios que é posta em causa, a narrativa que construímos sobre nós mesmos…. o que me levou a repensar: a forma como comunico; e a postura que tenho vindo a adoptar, nas mais diversas situações.

Há muito tempo que me assumo como membro do clube dos introvertidos, e digo-o facilmente, como quem se explica através de um rótulo social, que expõem defeitos e virtudes e simultaneamente os justifica.

Por isso, é fácil perceber porque escolho este rótulo: ele é conveniente e valida o meu lugar, sempre em segurança, entre os que observam… os que estão atentos aos detalhes, os que vão apreciando a vida dos outros…. a fascinante diversidade da vida dos outros, que tem sido a minha maior inspiração.

***

Acho que não estou sozinha nisto.

Quem nunca se sentou numa esplanada, num banco de jardim ou de testa colada ao vidro da janela lá de casa… e se deixou levar pelos rostos que passavam? Se pôs a inventar-lhes um nome, uma família… a imaginar para onde caminham naquele momento a passo apressado? Se os espera uma casa vazia? Ou cheia? Se são gentis para quem os ama? Quando foi a última vez que choraram? E porquê?

Talvez não o faças há muitos anos, porque isto é uma brincadeira de faz-de-conta, mais coisa de criança do que dos adultos ocupados que somos….

Nós crescemos – e nesse entretanto – o tempo vem ganhando vida própria… não é? Há dias em que até parece que é ele, quem nos utiliza a nós.

***

Acredito que este encanto que sentimos por uma boa história, é universal.

Há aqueles de nós que se ficam pelo imaginar… o Era uma vez… e se?… há quem as escreva, quem leia, as ouça, as partilhe… e há quem torne, os outros, num projeto de vida.

Um exemplo é o Story Corps – Story Corps é um projeto que vem gravando conversas entre pessoas comuns, americanos neste caso, e tem mais mais de meio milhão de histórias guardadas. Vou adicionar no blog um link para a apresentação que o fundador deu no TED sobre este projeto. Vale a pena assistirem.

Pode ser que alguém se inspire a desenvolver algo semelhante em Portugal. Passem a palavra!

E há ainda, uma biblioteca muito original: A Biblioteca Humana…  ouviram falar?

Este é um projeto que teve início há alguns anos e que veio tornar possível requisitar uma conversa com um desconhecido – tal como podemos requisitar um livro numa biblioteca convencional.

Genial, não vos parece?

A Biblioteca Humana tem um catálogo composto por uma base com voluntários, pessoas que se disponibilizam para conversar abertamente sobre temas como religião, abuso de drogas, como é viver com doenças e limitações físicas ou mentais; e muitos outros aspetos que definem as suas vidas privadas. 

Se nunca tiveste uma conversa com, por exemplo um muçulmano, na Biblioteca Humana vais encontrar vários muçulmanos disponíveis a conversar contigo e responder às questões que possas ter. 

Fantástico, não é?

A grande maioria de nós participa nesta partilha de humanidade, como observador… E este é um lugar muito confortável… onde eu também tenho estado… isto é, até há poucos dias atrás, quando surgiu esta ideia de podcast!

Agora proponho-me a deixar aqui o meu contributo – a pensar em voz alta, e responder às questões que me queiras colocar.

Podes escrever-me para mariaisaac.pt@gmail.com 

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Quando ajeitei aqui o micro e comecei a gravar – há um par de horas atrás – porque isto de começar leva o seu tempo… vim reformulando os temas que gostava de abordar aqui no podcast, uma vez que há tantas formas de falar sobre livros e escritores, escrita e leitura… 

Bem… estou confiante que, nestes próximos episódios que se seguirão, vai acabar por se definir naturalmente; episódio a episódio. E como referi: também se aceitam sugestões. 

Poderás encontrar no Blog PalavraPodcast a transcrição dos episódios, links úteis associados com os temas que vou partilhando, e sempre que possível, alguns extras. 

***

E agora, só para ti, que gostas de prolongar a noite e que não resiste a uma história: Convido-te a ficar mais um pouco. Porque a seguir – e ainda em jeito de apresentação neste primeiro episódio do podcast – vais poder ouvir o prólogo de Onde Cantam os Grilos.

Porque, o que é um escritor…? Senão as suas palavras?

***

Onde Cantam os Grilos 

Prólogo

No final, esta história poderá parecer uma tragédia. Mas não é essa a minha intenção.

Vou tentar escrevê-la novamente, a história dos Vaz e da Herdade do Lago, desta vez como uma história de amor. Desvendará o coração de duas pessoas, a vida de muitas outras, só que em vez de um herói e de um vilão, ter-me-á apenas a mim.

Bem, talvez também não dê uma grande história de amor. Sim, chamemos-lhe uma tragédia. Porque não? Todos somos protagonistas de uma. Todos nós morremos no final.

Mas tenho de vos contar este pedaço da história – se não for para me redimir, que seja pelo menos, como uma última tentativa, para sossegar uma consciência que se sente em falta.

Tenho um cenário verdadeiramente idílico, nesta herdade, mesmo num dia chuvoso e lúgubre como o de hoje. Um lugar no Portugal esquecido, verde, frio e húmido, berço de tantas infâncias, onde o meu corpo de adulto já não combina. Há muito tempo que não tenho lugar aqui.

Continuo a tentar. Reescrevo com mais paciência. Recordo todos os rostos do passado e desejo que, desta vez, as palavras lhes façam justiça.

Confesso que não sei como me apresentar, nem a esta História dos Vaz e da Herdade do Lago. O que posso dizer-vos é a verdade, mesmo nos momentos em que seria melhor mentir. E se, ao longo das páginas que se seguem, começarem a gostar um bocadinho menos de mim, peço-vos que se lembrem desta promessa… e de que esta história não é sobre mim, é sobre todos eles.

A Herdade do Lago é aquele quadro gigantesco na parede de um museu, pelo qual não conseguimos passar sem reparar. O quadro de que toda a gente gosta, mas no qual ninguém se demora e é abandonado sempre cedo demais. Porque esta herdade entra na memória como a inspiração, como uma corrente de ar pela brecha de uma janela mal fechada – cada um sente-a, imagina-a e inventa-a.

Não consigo contar-vos as origens da Herdade do Lago. Existem demasiadas versões, sem a certeza de que alguma delas seja a verdadeira.

Da pouca consensualidade entre as lendas, dizia-se que a herdade era deslumbrante, gigante, adorada por cada um dos seus donos e que todos eles tinham o apelido «Vaz», que sempre assim o fora e sempre assim seria.

Ah! E uma maldição. Há sempre uma maldição com hálito de destino trágico – sem nenhuma moral no final da história.

Quanto a este passado, o passado da herdade e das muitas gerações dos Vaz, não vou alongar-me; dele existem versões suficientes. Vou começar quase pelo fim, quando lá cheguei.

***

Obrigada por estares desse lado e partilhares desta noite comigo. 

Poderás encontrar no Blog PalavraPodcast a transcrição de todos os episódios, com links úteis.

E se quiseres falar comigo, sabes como me encontrar.

Deixo-te agora de volta ao teu livro.

Eu sou a Maria Isaac. Boas leituras. Até ao próximo episódio.